segunda-feira, 30 de julho de 2007
Samba, suor e Monobloco
A localidade democratizou um pouquinho mais o show, que foi entre o Museu da República e a Catedral, pertinho da Rodoviária. O horário deu uma colaborada também: 17 horas [mesmo sabendo que nunca começa na hora].
Ellen Oléria com seu balanço black abriu o espetáculo que, além do bloco carioca, teve a participação especial da big band local Móveis Coloniais de Acaju. [Nota fofoqueira: Lucas Santanna que arrasou no último Som Brasil – especial Noel Rosa, estava lá, junto com o povão, curtindo o samba].
Foram duas horas de muita batucada e energia. Tim Maia, marchinhas de Carnaval e funk embalaram a noite dominical, regada à lua cheia, que tinha tudo pra ser morgada.
Mesmo sem tocar o clássico samba enredo “A minha alegria atravessou o mar...”, o Monobloco animou os brasilienses e trouxe um pouquinho do carnaval e do Rio de Janeiro pra cidade. E o melhor: foi de graça.
domingo, 29 de julho de 2007
Fim do PAN
Pensei muito sobre o que escrever aqui, é muito assunto sobre o PAN, é a falta de tempo, é o Monobloco me esperando na Esplanada, mas vamos lá, às pequenas e divagações sobre o tal evento.
Escreveria sobre como o Rio de Janeiro me surpreendeu e que eu esperava o pior. É escreveria, pois o pior aconteceu e está ainda lá, latejante, sem o Brasil enxergar.
Mais de mil quilômetros me separam do Rio, mas cariocas que estão lá comentaram o caos em que se encontra a cidade. “Foram 40 mortos no Morro do Alemão”, um diz. “Estamos em Estado de Sítio”, outro completa. E o PAN atrasou duas horas e quase ninguém sabe, por que quase ninguém viu? Em nenhum momento vi a televisão [esse meio de comunicação gritando sem parar, que está em maioria esmagadora nos lares brasileiros] falar que incidentes na cidade maravilhosa... E para piorar no último dia 17 sofremos com mais um desastre aéreo. Mais de 200 mortos em um piscar de olhos. Nos olhos televisivos que não revelam as vítimas de uma política sem rumo e sem noção.
A grande mídia não mostra também as medalhas quebradas, sensíveis, de acrílico ou as desistências dos voluntários, motivadas pela péssima alimentação e assistência. Um blog que vai muito mais a fundo mostra esse outro lado da competição: http://averdadedopan2007.blogspot.com/.
Apesar dos percalços do caminho, demos uma salva de palmas para nossos atletas brasileiros, pelo esforço, fé e dedicação. Ouvi muito já que falta garra neles, que perdemos por pouco, que foi vacilo... Mas é bom lembrar da super preparação física/psicológica dos norte-americanos e cubanos, que mostraram resultados com as 97 e 59 medalhas de ouro, respectivamente. E mesmo com toda falta de apoio, patrocínio e outros, conseguimos 161 medalhas no total, atrás somente dos EUA, com 237.
Valeu e valeu muito. Valeram as oito medalhas do Thiago Pereira, o choro e a ascensão da pequena Jade e os incríveis gols da Marta no Maracanã. Valeu demais nosso primeiro ouro vir com o negro.
Mas que as vaias que ecoaram no Maracanã permaneçam para todas as autoridades que mascaram as lágrimas e dores de atletas, que lutam não por medalhas de ouro, e sim por sobrevivência.
sábado, 28 de julho de 2007
Um sambista na madrugada
A emissora dos Marinho tem o péssimo hábito de colocar os programas bons em horários impossíveis. Serginho Groisman é sábado às 7h da manhã ou já nas madrugadas de domingo. Quem está acordado ou em casa essa hora? Mas o besteirol continua firme e forte, às 2h da tarde...
Ontem fui dormir às três horas da manhã depois de ver o SOM BRASIL especial NOEL ROSA. Noel merece esse esforço. Relembrar o sambista, autor de mais de 300 sambas merece sempre; merece minha presença em casa em uma sexta a noite. Agora quem estava sexta à noite, de férias, em casa, para esperar passar às duas da manhã [e durar 50 minutos] o tal programa.
Eu já sabia que ia ser assim. Na primeira edição do programa, que homenageava Vinícius de Moraes foi do mesmo jeito, mas ao menos, foi uma horinha mais cedo. A segunda, o destaque era Caetano Veloso; não posso falar nada, não vi. Cantor vivo a gente acaba deixando um pouco de lado...
Maria Rita, Marcos Sacramento, Orquestra Imperial e Lucas Santanna e Seleção Natural. Gente saída do forno [nem todos, e nem tão quentes assim] relembrando o compositor de Um Pierrot Apaixonado, morto há 70 anos.
Jornalista é fofoqueiro profissional, dizem muitos; e estudante de jornalismo é palpitero de carteirinha, outros. Daí, me sinto á vontade para proclamar algumas opiniões...
Maria Rita é uma boa cantora, gosto dela particularmente, mas sua participação ontem foi tão fraquinha... Cadê Bethânia, que no projeto inicial comandaria o tributo ao personagem da Vila Isabel? Três apitos e Último desejo ficam mais poéticos com a galera da velha guarda, não tem jeito. MPB-4 e Quarteto em Cy são tão mais...Noel, não? E Conversa de Botequim? Dóris Monteiro fez a melhor versão ao meu ver....
Mas vamos aos elogios. Marcos Sacramento que tá na estrada tem tempo e ainda é pouco conhecido no cenário candango [confesso que ouvi o nome dele pela primeira vez ano passado, em um projeto de Bossa Nova do CCBB] trouxe uma delicadeza contemporânea para Meu Barracão. Gostei e gostei muito.
Lucas Santanna e a tal da Seleção Natural são novíssimos pra mim. Nunca ouvi falar. Descobri via Google que eles tocam muito no Rio de Janeiro, lá pela Lapa. Lucas é baiano e sobrinho de Tom Zé. Bem que eu senti um batuque a mais em Com que roupa? e em Palpite Infeliz. E Filosofia ficou bem bacana, tão carnavalesca quanto a trupe da Orquestra Imperial.
Ahhh!!! Essa Orquestra é show! Thalma de Freitas cantando Não tem Tradução foi uma disputa acirrada com Nina Beker e a Fita Amarela. Nota 10 pras duas. Rodrigo Amarante e Jacobina não ficam atrás e deixam os brasilienses em uma expectativa bem maior para o show da banda carioca, dia 11 de agosto, no Setor de Clubes Sul.
Apesar da hora, de poucas pessoas terem visto valeu a pena demais cantar baixinho de madrugada [para não acordar ninguém] esses sambas do saudoso mestre Noel. Mas vai ficar devendo: Tarzan, De babado e Provei. Assim é até melhor. Mais repertório para um outro programa, quem sabe, mais popular.
sexta-feira, 27 de julho de 2007
A volta dos que não foram?!
Ser politicamente correto no Brasil não dá mesmo não. Esses dias no mercado, vi um açúcar que custava o dobro do preço. "Deve ser todo saudável, sustentável e bláblá", disse eu para mamis. Não deu outra. Aí, olhamos novamente o preço do outro açúcar e levamos o mais barato. No dia que os políticos pararem de nos roubar, vai sobrar mais grana pra comprar produtos saudáveis e bláblá. Aí vem gente reclamar que compramos tênis, cds e dvs e tudo mais piratas. A ética deve vir daquele trem no meio na Esplanada. Que ética né? O presidente da República é vaiado num Maracanã cheio, o senado transborda enrolação e corrupção, o cara que fraudou o painel é o governador da minha cidade...ahhh que ética!?
Esses dias que estive fora [?! e dentro daquele ar-condicionado chato] pensei em escrever sobre tanta coisa. Sobre o PAN que acaba domingo [aí eu juro que escrevo algo, se bem que ainda temos o Para-PAN...]; pensei em escrever sobre o ACM que morreu [e eu nem acredito], mas a notícia ficou velha e sem graça, aí deixei pra lá [além do quê muito baiano ia chiar se soubesse o que certos brasilienses brindaram no bar sexta-feira]; aí pensei em escrever qualquer coisa, mas a minha conexão doméstica não me permitiu. Podia ter postado lá do estágio, mas essa semana eu trabalhei [por incrível que pareça].
Arranjei o que escrever aqui, né Eduardo? Até sobre dor de barriga mesmo. Mas esses papos escatológicos vão ficar prum outro post.
domingo, 22 de julho de 2007
Férias
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Indigestão
Samanta acorda com ressaca e mesmo assim sente-se bem hoje. Qualquer dia que se acorda com carícias correndo pelo seu corpo, que desperta com sede, mesmo cansado após uma noite de amor, é motivo para estar feliz. O café fraco e mais amargo do que o costume, desce macio como o rosto perfeito pelo seu ventre.
Clarissa deveria escrever mais um capítulo de seu livro onírico,...Onírico porque só ela acreditaria nele. Faltava coesão, coerência, afinco no desenvolvimento; mas a moça do cerrado, de pele branca, que nem a tal porcelana da xícara, insistia nos tais escritos, arrastados em mais uma manhã de agosto.
Essa manhã é como uma montagem de como deseja ser seus dias daqui para frente, sem mais desculpas e toques que só parecem sinceros após discussões. Samanta está cansada disso, cansada do corpo que deseja e que parece sempre mais ocupado com passado e prazos ao invés de seus desejos.
O telefone toca e é sua mãe; outra grande mulher que ensinou a Clarisse o que é ser de rocha por fora e cristal por dentro. "Não se deve mostrar as lágrimas, elas mancham em demasiado", diria a mãe, em algum momento. Combinaram um almoço, no mesmo restaurante de sempre, e com a comida de sempre.
Neste momento, enquanto a água cobre corpos que parecem apenas um em meio ao banho, ela pensa em como é bom chorar de prazer, como é perfeito deixar um corpo entrelaçado ao seu e dizer que ama e está apaixonada mesmo não estando. Ela sorri quando sente o orgasmo chegar ao mesmo tempo que o telefone toca.
Já na sobremesa - uma saborosa torta alemã - Samanta chega, acompanhada de sua nova namorada. Clarissa desaba. Percebe o ar apaixonado que contamina o local, sente os tais anjos tocarem cornetas ao ver as duas e engasga com um pedaço da torta. À francesa, a aspirante a escritora sai, e volta para mais um dos seus capítulos. "Indigestão", seria o nome dele.
Essa menina me abraça com tanta ternura que sinto que irei começar a chorar, simplesmente por me sentir amada, desejada, prioridade aos seus olhos. Seu beijo é quente e doce como uma sobremesa cara. Um sentimento que havia esquecido depois de tantos anos sendo o toque quente a olhares frios. Desejaria que fosse Clarissa o formigar destes toques, mas está feliz por não ser. Eu que preciso me sentir viva, isso é importante. Provavelmente Clarissa está mais feliz em meio a sua dor, escritores escrevem melhor assim, não é mesmo?
Texto de Maíra Brito e Eduardo Ferreira.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Paris, je t’aime!
Parece chique dizer isso mas nem é. Eu juntei uma grana durante dezessete anos da minha vida e consegui ir até a capital francesa. Sempre, inexplicavelmente sonhei com ela. Fiz francês quando pequena e cantava “Sur le pont d'Avignon” e me imaginava subindo a Torre Eiffel... Tem gente que acha Paris clichê, e é mesmo, que nem o Rio. Mas confesso que me emocionei bastante quando fui a Avignon e andei na tal ponte...
Paris é mais bela por suas singularidades. Suas pontes sobre o Sena, as iniciais de Napoleão incrustadas nelas, suas livrarias-sebos ao longo do rio...Ah, Paris! Vai muito mais além da tal torre, do museu com a Monalisa ou da igreja com os gárgulas...
Aquela cidade, pra mim, é comer chocolate na frente do rio Sena, é beber cerveja em saco de pão do lado da Sorbonne , é ver fogos em um trilho de trem abandonado ou simplesmente encarar um metrô cheio depois da festa da Bastilha, com direito à luzes da torre e música clássica.
A cidade luz é a simplicidade do caminhar pela Champs-Elysees, é o que está fora dos roteiros turísticos.
domingo, 15 de julho de 2007
A escrita
Mia Couto, em Terra Sonâmbula, foi tão simples que reproduzo seus escritos:
- O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?
- Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando.
- E alguém vai ler isso?
- Talvez.
- É bom assim: ensinar alguém a sonhar.
Críticas, elogios, asnneiras, profundidades, verdades ou mentiras, não importa, é escrita. Mia estava certo: se ela fizer sonhar já basta.
Bons sonhos.sexta-feira, 13 de julho de 2007
Espelho, espelho meu
Quis escrever sobre beleza, mas sobre a minha beleza negra específica; gritar ao mundo o que é ser mulher negra em um país de maioria negra, em que seus habitantes têm vergonha de dizer a cor da sua pele.
O meu mundo é branco. Desde pequena, acordo e vou para alguma instituição de ensino onde a maioria vai ser branca: meus amigos, meus professores... A única identificação negra que possuo nesses lugares são seus funcionários.
Sou estudante de jornalismo, mas não leio jornal, não gosto, não conta nada de novo, por incrível que pareça. Só quem faz jornalismo sabe a besteira que são os jornais. Claro, não todos, muitos jornais, revistas, sites e afins se salvam no mar de asneiras publicadas diariamente; daí, só leio a galera que vai contra a maré.
Mas não importa os veículos, todos eles são brancos. Nas propagandas, nas matérias políticas, econômicas, sociais, culturais. Eu não me enxergo no meu país.
Reclamo bastante, mas muito mudou: o mundo negro se insere a cada dia mais nesse mundo (ironicamente) branco. Hoje existem revistas e outros mais, voltados aos negros, o que é muito importante.
Será que a população brasileira sabe a importância desses produtos?
Vou ilustrar com um exemplo como é necessário ter um espelho na mídia para sua auto-afirmação:
A Xuxa é que nem o Faustão, nunca vai desistir da TV, assim, quando eu era pequena ela já habitava a telinha da Globo, com seus fartos cafés-da-manhã, com o Dengue, e o outro boneco lá e com suas paquitas. Tinha a Angélica, sua pinta e o SBT. Um pouco depois apareceu a Eliana, a música dos dedinhos e Melocoton. O que as três têm incomum? São loiras, claro! (Não cabe citar a Mara, afinal, ela era morena, mas é bom lembrar da Jaqueline que veio anos mais tarde).
Parece pequeno e discreto, mas a opressão midiática me afetou em cheio quando eu pensei que não poderia ser uma das paquitas. Parece um desabafo patético, mas para uma criança de sete, oito anos é muito. Um dia surgiu uma ajudante da Xuxa, que era morena, mas que em algum momento fez luzes também. A cor do cabelo não importava, era a cor da pele que estava em questão. Eu jamais poderia pintar meu cabelo de loiro, a não ser que não tivesse o mínimo bom senso. Eu não podia estar na televisão como apresentadora, mocinha de novela ou âncora de telejornal; a minha pele representava a empregada doméstica, a prostituta (já citamos o seu valor aqui), o malandro, o bandido, e assim vai... “Ser negro era ser ruim”, parecia dizer os meios de comunicação, de uma forma inconsciente, e eu não queria ser ruim.
Lembro que na segunda série escrevi em uma redação que achava um defeito ser negra; hoje me envergonho de ter dito tamanha asneira. A sábia professora escreveu na redação “você é linda”, aí eu repensei e acreditei nela.
Graças aos meus estudos, esclarecimentos e etc., hoje sei como sou bonita e que posso tudo. Olho-me no espelho e não vejo defeito algum - a não ser a espinha que nasceu no meu nariz e que me motivou a escrever esse texto. Vejo meus olhos e minha boca mais indígena que negra e acho lindo; vejo meu largo nariz, meu cabelo encarapinhado (que insistem em intitular de “ruim”) e acho bárbaro. Não sei qual é a graça de ser igual a todo mundo, muito menos igual a todo mundo da mídia. Eu me vejo pouco nas bancas de jornal e só acho uma pena, porque lá no fundo, as bancas seriam boas distribuidoras de uma beleza não-efêmera (parafraseando a cantora Céu).
O dia que o Brasil estiver preparado para se olhar no espelho, serão outros 500, só não desejo que leve mais 500 anos.
terça-feira, 10 de julho de 2007
Carta de Despedida
De nada posso reclamar, eu também te traí, te apunhalei pelas costas, ou melhor, pela frente mesmo, atingindo em cheio o coração. Resolveste fazer o mesmo não é?
Quem era tua companheira, tua amiga amiga, tua mulher, caramba! Eu! Foi eu quem que sempre estive ali, foi eu quem reparei teus enganos, enxuguei tuas lágrimas, limpei teus vômitos...
E agora? Eu fico aqui então? Me lamentando por essa tua desastrosa traição... Porra, minha amiga? Não acredito que achaste que jamais descobriria...
Tua sorte é que ela é ingênua demais, não percebeu tuas segundas, terceiras intenções. Queria fazer com ela o mesmo que fizeste comigo. Bobo, juvenil, amador, vê se aprende! Muda de técnica na próxima.
Não quero mais te ver, não pelos próximos dias. Sei lá, talvez eu te perdoe, não por completo, para fazer exatamente como você fez comigo.
Some, vai pensar na vida, pensar na gente e tentar chegar a alguma conclusão; talvez seja melhor acabar por aqui mesmo, a gente tá desgastado, a gente já se cansou.
Nosso amor é pra todas as vidas, meu bem, não se preocupe, um dia, quem sabe? Talvez no futuro, talvez aqui, estaremos juntos de novo.
Sempre estaremos juntos, lembra daquele papo de eternos amantes? Sim, sim, isso existe, é a gente, meu amor...
Então ta, tchau e boa sorte nessa tua nova caminhada, e quando quiser voltar, avisa antes, só pra eu ver se realmente vale a pena...
Apesar de tudo ainda te amo (a gente acaba aprendendo a perdoar nessas histórias de amor).
Beijos e te cuida. Ah, sim! Tem um resto de frango de ontem na geladeira.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Pílula de Sobriedade
Almoço, ele e os meninos comiam e iam ver TV, ela voltava para o trabalho e só retornaria às sete. Crianças sem banho e sem janta. Ela vai para a cozinha, consegue tomar um banho e vai se deitar. A cama está vazia, ele já foi pro bar.
A ultra-mulher acorda revoltada e toma uma importante decisão: vai comprar um microondas!
domingo, 8 de julho de 2007
Ela
Ela vai à missa todo domingo e pede para que o mal não os alcance.
Ela abre os armários e sente o cheiro dele ainda nas roupas dela. Um cheiro de homem, de desejo, de medo. Ela era ainda menina quando se perdeu nos braços dele.
No banheiro falta uma escova de dente. Ela torna a rezar. Não se sabe se é para que ele volte ou para que permaneça longe.
Ela não chora mais. As cicatrizes da alma não fecham com lágrimas.
sábado, 7 de julho de 2007
A Pál utcai fiúk
Ferenc Neumann é o autor do best-seller que acabei de ler a pouco. Seu nome se transformou para o húngaro, e desde então se tornou Ferenc Molnár, como é conhecido. Em português seria o "Francisco Moleiro".
Ele foi jornalista, correspondente de guerra, mas o que nos interessa é o seu livro de maior importância: Os Meninos da Rua Paulo.
Com forte influência do Novo Mundo, de mocinhos-e-bandidos, de apaches e afins, a obra trata de amizade, lealdade e honra. Um livro com uma doçura juvenil que se encaixa mais aos adultos, talvez por conservarem a aura da história contada.
Um duelo de meninos por um território, em uma Hungria que ainda respirava interioridade e não tinha sido marcada pelas Guerras Mundiais que surgiriam. A Pál utcai fiúk [nome do livro em húngaro] vai ficar marcado, assim como João Boka, Ernesto Nemecsek e os outros meninos da rua Paulo.
A tradução é de Paulo Rónai, o húngaro que aprendeu português sozinho e que ironicamente nasceu no ano de publicação do livro, 1907. Vale a pena conferir.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Do outro lado da ilha
Há uns quinze anos atrás, uma família brasileira desembarca em Havana: pai, mãe e três filhos. Funcionários da embaixada com direito a casa à beira-mar, carro e salário em dólar, num país em que se seus habitantes usarem roupas ou possuírem dinheiro do Tio Sam são acusados de traidores.
A alegria acabou por aí. Eram meados dos anos 90 e com certeza Cuba mudou muito de uns anos pra cá. Mas alguns desses relatos ainda devem permanecer iguais. As coisas que ouvi desfizeram a imagem de bela ilha, resistente e vermelha para um pedaço de terra no meio do mar, longe de tudo, de todos e com gente gritando por ajuda ou discretamente pedindo clemência.
A família brasileira em questão é negra, assim como os habitantes do país e, por isso, ironicamente, sofreram mais preconceitos do que no Brasil – a terra mítica miscigenada. Tanto mãe como filha foram inúmeras vezes confundidas com prostitutas, humilhadas em cafés e bares ou bateram de frente com policiais, dizendo que não eram cubanas e que o consulado resolveria tais confusões.
Com o filho mais velho do casal não foi diferente. O documento teria que estar sempre em mãos e nem sempre o zelo era válido: delegacia, junto com os outros garotos locais.
Ouvindo tudo aquilo me senti aliviada, porque apesar de muito preconceito, apesar de já ser sido confundida com prostituta, empregada doméstica (que são profissões muito dignas, diga-se), menina de rua, jamais pararam um carro do meu lado me oferecendo duzentos dólares por um programa. Pensando bem, o mais desesperador é saber que as meninas do secundário, na terra de Fidel, se prostituem por um estojo de maquiagem, ou por um perfume. Claro que no Brasil também ocorre isso, mas imaginar a dor de mais milhares de mulheres é desanimador.
Na mesma terra onde todos lêem e escrevem, a educação básica passa longe de certos estabelecimentos. Donos de padaria, por exemplo, fazem seus clientes e conterrâneos buscarem o pão na garagem, próxima à loja. Açougueiros negam carne visando lucro em cima dos estrangeiros, que lhe pagam propina. Dizer-se brasileiro, africano, ou qualquer coisa, menos cubano é um cartão de passagem para uma vida mais tranqüila.
E a saúde? Tem que ser muito boa mesmo para os absurdos que eles vivem. Gelo, mercúrio e sacarose, é a receita para o geladinho de morango, vendido por lá. Além de um pano, que é congelado, cortado em fatias, temperado, colocado no pão, e vendido como sanduíche de carne. Nosso churrasquinho de gato fica no chinelo.
Além de todos esses absurdos, deve haver muito mais que não se conta, que não se vê e que queima como chagas na vida desse povo pedindo socorro.
Pra mim o Socialismo não deu certo, só foi uma utopia imposta e que destruiu milhares de pessoas e sonhos. Em Cuba é assim, na China [que falaremos mais tarde] também, e em outros vários lugares que sentiram a obrigação de criar a igualdade. Suas populações estão com feridas difíceis de cicatrizar.
Cuba ainda vai ser a quimera revolucionária de alguns, mas será sempre a prisão ilhada de muitos outros.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
O fim de uma era?
Roriz nunca me enganou. Há tempos percebi que o cara não levava jeito para governar. Ele superpopulou o Distrito Federal com seus lotes, agravou o problema hídrico da cidade e pelo visto desviou muito dinheiro. Aqui, ele foi eleito umas quatro, cinco vezes, e o povo não entendeu que a gente tava indo pro buraco.
Não entendeu mesmo: hoje de manhã uma senhora foi deixar uma imagem de santo na casa do ex-senador. Aí todo mundo justifica com o “ahh, mas ela é humilde”. Tá bom, vamos relevar todos os eleitores humildes dele, afinal não tiveram estudo e bláblá; sobra quem? Nós, classe média. Mas digo, nem toda classe média é capaz de cometer o disparate de votar em JR. Mas como existe gente, com estudo e bláblá, capaz de votar nele? “Ai, porque ele ajudou meu pai...”. São esses e outros assistencialismos que destroem a política brasileira.
Dizer “não” pra político cheio de politicagem é um bom começo, se não, não me venha dizer que “o Congresso Nacional está cheio de corruptos e não sei o que mais”....
Roriz é um cidadão comum agora. Comum, rico e com uma imagem de Nossa Senhora na frente de sua bela mansão no Park Way. Que Nossa Senhora vele por nós, pobres cidadãos comuns....
terça-feira, 3 de julho de 2007
As coisas da minha mãe
Eu disse que escreveria todo dia. Anda difícil. O blog tem um mês e 25 textos e tá de ótimo tamanho. Talvez o ritmo se mantenha; talvez não.
Há tempos quero falar da minha mãe [plagiando um pouco a srta. Kopko]. Minha mãe é bem careta, mas uma porra-loca enrustida, creio eu. Ela possui um vocabulário incrível, apesar de falar e escrever muito bem o português. Ela costuma usar expressões muito peculiares, umas do popular, outras de autoria própria. Mas todas são hilárias e merecem um cantinho nesse blog.
A clássica é a tal "Entre mortos e feridos salvaram-se todos". Como assim? Pois é, não é pra ter sentido mesmo...
"Tudo pelo social" é do Sarney, mas vale ser citada. Madrecita sempre diz isso quando não quer ir a algum lugar, mas é necessário. Cabe como uma luva.
Ela acha que fala espanhol, inglês, francês...qualquer coisa, assim quase sempre se atreve a mostrar todos seus conhecimentos estrangeiros. Quando ela chega, vem gritando "Mi corazón partío..." e quando vai embora proclama o "Bye bye so long very well". É de morrer de rir, porque ela SEMPRE fala isso. Dá pra combinar um coro...
Tem outra, típica de mãe, quando acordo quase sempre escuto um "Bom dia flor do dia". Esse é o mais fofo, sem dúvida.
Tem umas bem psicodélicas do tipo "Valeu boi". Hahaha. As duas [eu e ela], dentro de um ônibus cheio, em Aracaju, acredito. Passa um um açougue com esse nome. Eu cheia de sacola e suvacos me rodeando. Cena patética. Caio no riso. Virou uma expressão nossa pra dizer "Valeu né?"..."Tá bom..."..."Chega".
A última dessa leva é "Morcego voador gritante". Expressão dela ao ouvir uma moto de noite e pensar que fosse um bicho dentro de casa.
Bem, deixa eu ir, já valeram alguns negritos para hoje. E como ela finalizaria: "Falou pouco, mas falou muito".