quarta-feira, 22 de julho de 2009
Samba, a gente não perde o prazer de cantar...
O samba é um negócio inexplicável e não é à toa que tem forte relação com a religião. Dizem alguns que o samba era uma maneira de chamar as entidades, e não duvido. Quando o couro do pandeiro come, a cuíca geme e o cavaquinho malandro toca, ahhhh, o samba. Ele toma conta do corpo. Samba, o dono do corpo, escreveu Muniz Sodré. Ele também sabia das coisas.
Muita gente sabe muita coisa, mas o que eu sei é sobre o sentimento que o gênero carrega. Não sei. Rio loucamente quando o som vai alto, penetra nas entranhas e me sacode... E choro quando ele suavemente acaricia meu rosto, trazendo lembranças e melancolias que, muitas vezes, insiste em existir.
Gosto do samba apesar de às vezes achar que ele se perde. Perde na cerveja em excesso, no papo em demasia, na saudade desenfreada. Gosto dele assim, nu e cru, do jeitinho que veio ao mundo.
Prefiro em doses cavalares: noites e noites ouvindo do melhor, relembrando o futuro que não chegou e esquecendo o passado póstumo. Contudo, não me importo que venha em conta-gotas, o importante é que venha e preencha, em partes, a dor do amor – mote para outras tantas letras recitadas em noites de luar.
domingo, 8 de março de 2009
As sete mulheres
Eram sete, e número mais cabalístico não havia de ter.
Sete mulheres. Sete almas capazes de levar o mundo nas costas com o bom e velho sorriso aberto. Não consigo pensar em beleza mais intensa e força mais sólida; em coração mais bom, em karmas tão complexos.
Mulher 1: A mais velha virou mãe das outras miúdas quando a mãe natural morreu. O coração parou. Talvez não tenha suportado as mazelas do mundo ou talvez amasse tanto que explodiu de emoção. Mas, com hipóteses à parte, ela já tinha ido e deixado à cargo da número um o árduo trabalho de cuidar das outras seis. A um, era uma mulher bonita, de olhos charmosos e de sorriso galanteador. Casou-se, perdeu o brilho e ganhou filhos. Perdeu a autonomia e ganhou regras. A família multiplicava, no mesmo compasso da dor de não sabe o que fazer com o futuro.
Mulher 2: Era quem carregava com mais cuidado o dom da calma. Mulher mais paciente não existia e por ter o tempo tão lento, deixou que caminhassem a pé os desejos e vontades. Virou esposa tardiamente e mãe com mais atraso ainda. Não tinha diploma, mas o título de mãe e mulher – o que não lhe bastava. Porém, o tal Cronos traria para ela sonhos, nem que fossem só para serem sonhados.
Mulher 3: Por sorte ou destino nunca foi o clichê-mãe. Não que não quisesse, mas não lhe deram opção. E sem mais nenhum caminho para trilhar, foi rumo ao cuidado de todos os outros, e assim, foi materna com cada um que passou na vida dela. E justo a vida foi quem a mais ameaçou, e por algumas vezes quis lhe deixar. Mas como mulher não deixou que escapasse e multiplicou a existência com a voz e com o olhar.
Mulher 4: Filha do meio, não tinha lá nem cá e por isso, escolheu a metade. Metade menina, metade mulher. Meio ser humano, meio ser do céu. Era como um anjo protegendo seus queridos e semelhantes. E ao cuidar demais do outro fez com que cuidasse menos de si. Criou filho, marido e vínculos até com quem não era dos seus. A bondade era a qualidade que caminhava com o egoísmo, entornado para si. O equilíbrio era outra cara metade que ela não conhecia.
Mulher 5: A mais vaidosa. Tinha uma beleza mais histérica que a número um, e um charme menos sutil. Todavia, mesmo maquiada de paz e felicidade não escondia a dor que sem querer apontava no canto do sorriso amarelo, emoldurado por lábios vermelhos. Produzia-se para o mundo e desnudava-se dentro de si... Enfeiando-se. Todos os homens da vida da número cinco ou partiam deixando um vazio choroso como o ronco da cuíca, ou ficavam, castigando-a como a mão no couro do tambor. Na batucada da vida, um samba triste anunciava a quarta-feira de cinzas.
Mulher 6: A risada ecoada pela casa facilmente se confundia com o pranto espalhados pelos cantos. O bom humor típico era tão constante como a rabugice que surgia em dias nublados. Era de todos pela simpatia ímpar. Era de ninguém em dias que passavam de par em par.
Mulher 7: A última era doce. Mais doce que doce de batata doce. Tinha olhar meigo, mãos quentes e coração aflito. O talento em criar roupas, artes e alimentos não era identificado no amor. O tinha de sobra e deixava em cada cachecol, colar ou comida que fazia. Deixava amor em todos os lugares e de tanto distribuir, um dia, ficou sem para si. Criou fórmulas e receitas para tê-lo sempre que precisasse, e dessa maneira resolveu botá-lo sempre que a convinha. Pitadas de amor eram espalhadas como migalhas de pão, afim de atrair quem desejasse mais...
Eram sete, mas poderiam ser 14, 21 ou 1 milhão. Eram só uma parcela do gene XX que o mundo criou sem saber ao certo como administrá-la. Eram sete em uma casa com homens de menos e dores demais. Sete multiplicadas por outras tantas e divididas por outros mais.
domingo, 1 de março de 2009
Partida
Assim como os gatos, as mulheres possuem um sexto sentido apurado e ótima intuição. E talvez por isso, a dor não a tenha pego de forma tão avassaladora.
Nos castanhos vivos, se via uma nuvem de indecisão e tormento. "Não queria te magoar’, eram as palavras dele, saindo doces e descendo amargas feito fel. E esse papo de mágoa ela já conhecia, a gente magoa só quem a gente gosta, ela se lembrava. Ninguém quer magoar alguém, mas é o que sempre acontece.
A maior preocupação era com a saudade, que incomodaria em noites frias e chuvosas, sem cigarro e sem cerveja, sem carinho e sem atenção.
Como seriam os dias daqui pra frente? Outros homens com outros cheiros e medos haveriam de surgir, mas ainda não era tempo de mudar, pensava. Sendo assim ou sendo assado, ela arrumava as malas para mais uma vez partir.
Partiria para um próximo amor e uma nova dor. Com cores novas, simbólicas, poesias vivas e palavras bonitas…
Iria para longe e para mais um motivo de inspiração.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Quarta de cinzas
A festa da carne chegou deixando marcas pelo corpo; sinais físicos e além deles também. Talvez o que tenha mais me balançado tenha sido a volta. Um caminho que não pensei que seria tão conturbado.
O carro bateu. A porta do passageiro foi destruída e a frente do outro veículo ficou bem acabada. O cinto segurou, nenhum ferido, só um roxo na minha cintura e dores espalhadas pelo corpo para lembrar que tudo pode mudar em 1 segundo.
Afinal, se tivéssemos saído 1 segundo antes, ou depois, do posto de gasolina; se tivéssemos olhado para a outra pista, e se uma série de ‘ses’ tivesse entrado em cena, nada daquilo teria acontecido.
Não tive medo, nem fiquei nervosa, mas ontem, ao acordar e ver o céu nublado, o sorriso da minha vó e o cotidiano colorido, pensei na vida. E sentada em um meio-fio, percebi as maravilhas a minha volta e chorei. Chorei pelo sol escondido, pelas nuvens de chuva, pelos amores que vieram, pelos que foram embora, por aqueles que ressurgiram mais lindos e mais fortes, pelas dores, pelos sorrisos, enfim, por tudo....
Porque eu lembrei que as marcas da alma são bem maiores que as marcas do corpo.
** e eis que blog ressurge das cinzas....
sábado, 17 de janeiro de 2009
A volta
Queria falar do Sol esturricante, da chuva no mormaço, dos mates, das itaipavas...do mar, do amor, de saudade, de nostalgia, de gente, de lugares, de passado, de futuro...
Mas em qualquer hora eu escrevo sobre tudo isso.
Agora não. Porque a chuva cai, algumas burocracias voltam, pessoas aparecem, a TV liga, o som grita, os livros se abrem...
Voltar tem disso: um certo mal estar por estar longe da válvula de escape e uma alegria tremenda por estar no meu lugar.
Minha vó diz sempre que “nada como a casa da gente”. É, ela sabe das coisas.
domingo, 28 de dezembro de 2008
“Este Rio de amor que se perdeu...”
Porque relacionamento sério, de papel passado é com Brasília. Minha cidade querida, de origem e pra sempre. Se eu for embora, eu vou ter que voltar; só porque é Brasília.
Mas e o Rio? É a minha utopia, meu desvio, minha fuga. Um lugar só meu e de todos. Rara e clichê. Viva e colorida.
Sem os concretos típicos da capital me perco pelos paralelepípedos branco e preto, cheios de areia. Sem a terra vermelha me deixo levar pela maresia insistente. Sem o silêncio de domingo ensurdeço com os ecos de "Sssskol gelada", "Bisssscoito Grobo" ou "Olha o mateee". Adoro.
O Rio se revelou pra mim por meio dos livros. Como boa navegante, viajo por aí... no mar de palavras. Tudo começou quando chegou a minhas mãos “Noites tropicais” de Nelson Motta.
A história da música brasileira, pra mim, era tudo aquilo que eu queria ter vivido, visto e sentindo - a mesma sensação que tive ao ler “Ao som do mar e à luz do céu profundo”, também do Nelson, “Quase tudo”, da Danuza Leão e os tantos livros do Ruy Castro. Mesmo (nem sempre) não falando de música, eles me mostraram aquele Rio preto e branco, com menos violência, com mais malandragem do bem, um Rio perdido nos meus pensamentos e tão próximo, que me arrepia só em lembrar.
Tudo o que eu não vivi no Rio é tudo do que eu sinto falta. E tudo o que vivi é o que me chama de volta, sempre. É o sebo, ali, no Bairro Peixoto; é o ar-condicionado, amolecendo o corpo recém saído do sol; é a Lapa ansiosa, com seus arcos abertos para todo mundo, com todos os cheiros, gostos e cores; é o mercadinho perto do metrô; a padaria da esquina; a pastelaria coreana; as lojas de suco...
Se não, é a Praça General Osório, fim da linha do ônibus, a minha lembrança do Bar Jangadeiro, dos tempos de Banda de Ipanema e de Hugo Bidet, que eu nunca vi, só ouvir falar...
Cada canto conta uma história, mas todas, no fim, falam do mesmo: saudade. E é por isso eu tô voltando, pra buscar, o que no fundo, também é pouco meu.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Ironias
7/12/2008: um torcedor são-paulino é mais uma vítima do despreparo da polícia brasileira. No mesmo dia, no mesmo lugar, um homem, imobilizado por policiais, leva um tapa na cara de outro policial.
10/12/1948: A Declaração Universal dos Direitos Humanos é assinada em Paris.
"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direito"
Não é o que eu vejo por aí.