terça-feira, 10 de julho de 2007
Carta de Despedida
De nada posso reclamar, eu também te traí, te apunhalei pelas costas, ou melhor, pela frente mesmo, atingindo em cheio o coração. Resolveste fazer o mesmo não é?
Quem era tua companheira, tua amiga amiga, tua mulher, caramba! Eu! Foi eu quem que sempre estive ali, foi eu quem reparei teus enganos, enxuguei tuas lágrimas, limpei teus vômitos...
E agora? Eu fico aqui então? Me lamentando por essa tua desastrosa traição... Porra, minha amiga? Não acredito que achaste que jamais descobriria...
Tua sorte é que ela é ingênua demais, não percebeu tuas segundas, terceiras intenções. Queria fazer com ela o mesmo que fizeste comigo. Bobo, juvenil, amador, vê se aprende! Muda de técnica na próxima.
Não quero mais te ver, não pelos próximos dias. Sei lá, talvez eu te perdoe, não por completo, para fazer exatamente como você fez comigo.
Some, vai pensar na vida, pensar na gente e tentar chegar a alguma conclusão; talvez seja melhor acabar por aqui mesmo, a gente tá desgastado, a gente já se cansou.
Nosso amor é pra todas as vidas, meu bem, não se preocupe, um dia, quem sabe? Talvez no futuro, talvez aqui, estaremos juntos de novo.
Sempre estaremos juntos, lembra daquele papo de eternos amantes? Sim, sim, isso existe, é a gente, meu amor...
Então ta, tchau e boa sorte nessa tua nova caminhada, e quando quiser voltar, avisa antes, só pra eu ver se realmente vale a pena...
Apesar de tudo ainda te amo (a gente acaba aprendendo a perdoar nessas histórias de amor).
Beijos e te cuida. Ah, sim! Tem um resto de frango de ontem na geladeira.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Pílula de Sobriedade
Almoço, ele e os meninos comiam e iam ver TV, ela voltava para o trabalho e só retornaria às sete. Crianças sem banho e sem janta. Ela vai para a cozinha, consegue tomar um banho e vai se deitar. A cama está vazia, ele já foi pro bar.
A ultra-mulher acorda revoltada e toma uma importante decisão: vai comprar um microondas!
domingo, 8 de julho de 2007
Ela
Ela vai à missa todo domingo e pede para que o mal não os alcance.
Ela abre os armários e sente o cheiro dele ainda nas roupas dela. Um cheiro de homem, de desejo, de medo. Ela era ainda menina quando se perdeu nos braços dele.
No banheiro falta uma escova de dente. Ela torna a rezar. Não se sabe se é para que ele volte ou para que permaneça longe.
Ela não chora mais. As cicatrizes da alma não fecham com lágrimas.
sábado, 7 de julho de 2007
A Pál utcai fiúk
Ferenc Neumann é o autor do best-seller que acabei de ler a pouco. Seu nome se transformou para o húngaro, e desde então se tornou Ferenc Molnár, como é conhecido. Em português seria o "Francisco Moleiro".
Ele foi jornalista, correspondente de guerra, mas o que nos interessa é o seu livro de maior importância: Os Meninos da Rua Paulo.
Com forte influência do Novo Mundo, de mocinhos-e-bandidos, de apaches e afins, a obra trata de amizade, lealdade e honra. Um livro com uma doçura juvenil que se encaixa mais aos adultos, talvez por conservarem a aura da história contada.
Um duelo de meninos por um território, em uma Hungria que ainda respirava interioridade e não tinha sido marcada pelas Guerras Mundiais que surgiriam. A Pál utcai fiúk [nome do livro em húngaro] vai ficar marcado, assim como João Boka, Ernesto Nemecsek e os outros meninos da rua Paulo.
A tradução é de Paulo Rónai, o húngaro que aprendeu português sozinho e que ironicamente nasceu no ano de publicação do livro, 1907. Vale a pena conferir.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Do outro lado da ilha
Há uns quinze anos atrás, uma família brasileira desembarca em Havana: pai, mãe e três filhos. Funcionários da embaixada com direito a casa à beira-mar, carro e salário em dólar, num país em que se seus habitantes usarem roupas ou possuírem dinheiro do Tio Sam são acusados de traidores.
A alegria acabou por aí. Eram meados dos anos 90 e com certeza Cuba mudou muito de uns anos pra cá. Mas alguns desses relatos ainda devem permanecer iguais. As coisas que ouvi desfizeram a imagem de bela ilha, resistente e vermelha para um pedaço de terra no meio do mar, longe de tudo, de todos e com gente gritando por ajuda ou discretamente pedindo clemência.
A família brasileira em questão é negra, assim como os habitantes do país e, por isso, ironicamente, sofreram mais preconceitos do que no Brasil – a terra mítica miscigenada. Tanto mãe como filha foram inúmeras vezes confundidas com prostitutas, humilhadas em cafés e bares ou bateram de frente com policiais, dizendo que não eram cubanas e que o consulado resolveria tais confusões.
Com o filho mais velho do casal não foi diferente. O documento teria que estar sempre em mãos e nem sempre o zelo era válido: delegacia, junto com os outros garotos locais.
Ouvindo tudo aquilo me senti aliviada, porque apesar de muito preconceito, apesar de já ser sido confundida com prostituta, empregada doméstica (que são profissões muito dignas, diga-se), menina de rua, jamais pararam um carro do meu lado me oferecendo duzentos dólares por um programa. Pensando bem, o mais desesperador é saber que as meninas do secundário, na terra de Fidel, se prostituem por um estojo de maquiagem, ou por um perfume. Claro que no Brasil também ocorre isso, mas imaginar a dor de mais milhares de mulheres é desanimador.
Na mesma terra onde todos lêem e escrevem, a educação básica passa longe de certos estabelecimentos. Donos de padaria, por exemplo, fazem seus clientes e conterrâneos buscarem o pão na garagem, próxima à loja. Açougueiros negam carne visando lucro em cima dos estrangeiros, que lhe pagam propina. Dizer-se brasileiro, africano, ou qualquer coisa, menos cubano é um cartão de passagem para uma vida mais tranqüila.
E a saúde? Tem que ser muito boa mesmo para os absurdos que eles vivem. Gelo, mercúrio e sacarose, é a receita para o geladinho de morango, vendido por lá. Além de um pano, que é congelado, cortado em fatias, temperado, colocado no pão, e vendido como sanduíche de carne. Nosso churrasquinho de gato fica no chinelo.
Além de todos esses absurdos, deve haver muito mais que não se conta, que não se vê e que queima como chagas na vida desse povo pedindo socorro.
Pra mim o Socialismo não deu certo, só foi uma utopia imposta e que destruiu milhares de pessoas e sonhos. Em Cuba é assim, na China [que falaremos mais tarde] também, e em outros vários lugares que sentiram a obrigação de criar a igualdade. Suas populações estão com feridas difíceis de cicatrizar.
Cuba ainda vai ser a quimera revolucionária de alguns, mas será sempre a prisão ilhada de muitos outros.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
O fim de uma era?
Roriz nunca me enganou. Há tempos percebi que o cara não levava jeito para governar. Ele superpopulou o Distrito Federal com seus lotes, agravou o problema hídrico da cidade e pelo visto desviou muito dinheiro. Aqui, ele foi eleito umas quatro, cinco vezes, e o povo não entendeu que a gente tava indo pro buraco.
Não entendeu mesmo: hoje de manhã uma senhora foi deixar uma imagem de santo na casa do ex-senador. Aí todo mundo justifica com o “ahh, mas ela é humilde”. Tá bom, vamos relevar todos os eleitores humildes dele, afinal não tiveram estudo e bláblá; sobra quem? Nós, classe média. Mas digo, nem toda classe média é capaz de cometer o disparate de votar em JR. Mas como existe gente, com estudo e bláblá, capaz de votar nele? “Ai, porque ele ajudou meu pai...”. São esses e outros assistencialismos que destroem a política brasileira.
Dizer “não” pra político cheio de politicagem é um bom começo, se não, não me venha dizer que “o Congresso Nacional está cheio de corruptos e não sei o que mais”....
Roriz é um cidadão comum agora. Comum, rico e com uma imagem de Nossa Senhora na frente de sua bela mansão no Park Way. Que Nossa Senhora vele por nós, pobres cidadãos comuns....
terça-feira, 3 de julho de 2007
As coisas da minha mãe
Eu disse que escreveria todo dia. Anda difícil. O blog tem um mês e 25 textos e tá de ótimo tamanho. Talvez o ritmo se mantenha; talvez não.
Há tempos quero falar da minha mãe [plagiando um pouco a srta. Kopko]. Minha mãe é bem careta, mas uma porra-loca enrustida, creio eu. Ela possui um vocabulário incrível, apesar de falar e escrever muito bem o português. Ela costuma usar expressões muito peculiares, umas do popular, outras de autoria própria. Mas todas são hilárias e merecem um cantinho nesse blog.
A clássica é a tal "Entre mortos e feridos salvaram-se todos". Como assim? Pois é, não é pra ter sentido mesmo...
"Tudo pelo social" é do Sarney, mas vale ser citada. Madrecita sempre diz isso quando não quer ir a algum lugar, mas é necessário. Cabe como uma luva.
Ela acha que fala espanhol, inglês, francês...qualquer coisa, assim quase sempre se atreve a mostrar todos seus conhecimentos estrangeiros. Quando ela chega, vem gritando "Mi corazón partío..." e quando vai embora proclama o "Bye bye so long very well". É de morrer de rir, porque ela SEMPRE fala isso. Dá pra combinar um coro...
Tem outra, típica de mãe, quando acordo quase sempre escuto um "Bom dia flor do dia". Esse é o mais fofo, sem dúvida.
Tem umas bem psicodélicas do tipo "Valeu boi". Hahaha. As duas [eu e ela], dentro de um ônibus cheio, em Aracaju, acredito. Passa um um açougue com esse nome. Eu cheia de sacola e suvacos me rodeando. Cena patética. Caio no riso. Virou uma expressão nossa pra dizer "Valeu né?"..."Tá bom..."..."Chega".
A última dessa leva é "Morcego voador gritante". Expressão dela ao ouvir uma moto de noite e pensar que fosse um bicho dentro de casa.
Bem, deixa eu ir, já valeram alguns negritos para hoje. E como ela finalizaria: "Falou pouco, mas falou muito".